ENTREVISTA

Entrevista com Rosana Rios para o site Azul Calcinha

Germana C. Viana
05/08/2005

Ah, garota esperta! Você nunca achou que Tolkien fosse um machistinha safado porque aparecia pouca moça no Senhor dos Anéis, certo? Você já tinha sacado que ali, a mulherada brincava de xadrez. E para completar, você ainda foi ler outros livros do tiozinho e viu um monte de moça causando (ok, aranhas também podem ser consideradas moças, oras!)

Pois bem, a escritora Rosana Rios também percebeu isso e decidiu fazer um mapeamento dessa mulherada, que resultou no livro Senhoras dos Anéis - Mulheres na Obra de J.R.R. Tolkien, um mega glossário, editado pela Devir, dessas moças tão importantes nas tramas de Tolkien!

Para saber um pouco mais como surgiu essa idéia, as calçolas fizeram uma entrevista com Rosana, veja aí:

Azul Calcinha - Fale um pouco sobre você.
Rosana Rios - Sou conhecida nos meios literários como Rosana Rios, e nas comunidades da Internet como Shelob. Sou autora de literatura Infantil/Juvenil e tenho vários livros publicados para esse público. Um dos meus hobbies é a Literatura Inglesa em geral, e a obra de J.R.R.Tolkien em particular. Então, tornei-me membro do Conselho Branco Sociedade Tolkien, associação que estuda e divulga as obras do autor inglês. No mês de agosto estarei na Inglaterra, representando o Conselho numa convenção mundial de Sociedades Tolkien, promovida pela Tolkien Society em Birmingham.
No mais, nasci e vivo em Sampa, tenho marido, filhos, cachorro, the whole package.

AC - Por que surgiu a idéia de pesquisar a respeito das mulheres na obra de Tolkien?
RR - Tudo começou em 2004, na época do Dia Internacional da Mulher. Nossa lista de discussão estava discutindo o papel das personagens femininas na obra de Tolkien, e eu tive a idéia de fazer uma pesquisa levantando quantas e quais seriam essas personagens. Muita gente acha que simplesmente não existem mulheres nos livros (ou pelo menos que elas não são importantes). Várias pessoas se ofereceram para participar da pesquisa, e fomos dividindo o trabalho. No final, estávamos com 23 pesquisadores e levantamos 93 nomes.
Saiu um glossário respeitável, e então achei que ele poderia virar livro, acrescentando alguns ensaios sobre as fêmeas nas diversas etnias do universo tolkieniano. Tivemos a felicidade de receber a aprovação da Editora Devir, e fomos presenteados com um prefácio do maior especialista em Tolkien do Brasil, o tradutor e consultor Ronald Kyrmse.

AC- Falando um pouco de O Senhor dos Anéis (o livro, não o filme), você acredita que as personagens mulheres (e isso inclui a Laracna) são figuras relevantes para a história?
RR - Mais do que se imagina. Não sabemos se Tolkien fez isso de propósito, ou se foi o inconsciente dele que fez com que as personagens femininas tivessem uma relevância mais profunda. Porém é isso que acontece: as mulheres estão colocadas de tal forma no tecido da trama da grande saga da Terra-Média, que se forem excluídas o tecido se desfaz.
O papel de certas personagens é o que dá apoio à história, sutilmente, como às vezes acontece na vida real – as mulheres dão início a certos processos que resultam em desenlaces importantes, enquanto os homens pensam que estão no comando... Podem estar nas sombras, mas são elas que põem as coisas em movimento. Varda, Melian, Lúthien, Idril, Galadriel, Morwen, Erendis, Prímula, Lobélia, Éowyn... todas elas, e muitas outras, estão por trás de viradas na trama.

AC - Fale um pouco sobre as deusas da mitologia de Tolkien.
RR - São as Senhoras dos Valar, as Valier. São parte dos Ainur, os espíritos que estavam com Eru Ilúvatar (o Deus Criador) desde o início. Os Ainur não tinham existência corpórea, e a assumiram quando vieram residir em Arda, a Terra. Então tomaram corpos – masculinos ou femininos, de acordo com a vontade de cada um. As Valier ocupam na história o papel de Deusas-Mães, Criadoras, às quais os Elfos e Humanos rendem reverência. A mais importante é Varda Elbereth, Senhora das Estrelas. Depois Temos Yavanna Kementári, Senhora da Terra, Nienna, a Senhora da Compaixão, Estë, a Saradora das Dores, Vairë, a Tecelã do Destino, Vána, Senhora das Flores e Nessa, a Valie da Alegria.

AC - Faça um pequeno panorama dos livros usados para a pesquisa e das mulheres de cada livro.
RR - Usamos a obra básica de Tolkien que aborda a Terra-Média: O Silmarillion, O Hobbit, O Senhor dos Anéis e Contos Inacabados. Existe ainda a série History of Middle Earth, em 12 volumes, que não foi traduzida para o português e onde encontramos textos antigos de Tolkien, mostrando como ele foi compondo suas obras. Usamos alguns volumes dessa série como apoio, mas o grosso do trabalho foi feito com as 4 obras, por assim dizer, “canônicas”.
O Silmarillion conta as histórias da Primeira Era de Arda, desde a criação do mundo, quando o grande inimigo dos Povos Livres era Melkor, o Morgoth. O Hobbit conta como Bilbo encontrou o Um Anel, em sua viagem a Erebor para ajudar os anões a recuperarem seus tesouros. O Senhor dos Anéis conta a história da Guerra do Anel, com os elfos, homens, anões e hobbits combatendo o maligno Sauron. E nos Contos Inacabados encontramos vários textos de Tolkien que complementam a grande saga. Usamos ainda vários livros de estudiosos que analisaram as obras do autor inglês como apoio bibliográfico.

AC - Dentre as mulheres de Tolkien, você conseguiu achar alguma preferida?
RR - Personagens preferidos são uma escolha muito particular. Eu tenho fascínio pelas aranhas, que na obra de Tolkien são sempre fêmeas, e sempre malignas – tanto que meu nick na Internet é Shelob, a Laracna. Mas gosto muito também de Idril Celebrindal, a elfa que viveu na mais bela de todas as cidades dos elfos, na minha opinião, Gondolin. A história da construção e queda de Gondolin, para mim, é uma das mais belas de toda a saga.

Namárië ar Hantalë,
Rosana “Shelob” Rios

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